Das Alegrias IV - Benedito Antunes
[07.11.2021]
A mão do deserto (2021), de Paulo Franchetti, evoca, além do óbvio clássico do cinema, alguns livros de viagem curiosos, que li principalmente com o propósito de participar imaginariamente de aventuras que jamais viveria. Mas, antes de avançar nesses comentários, quero registrar que percebi com satisfação que participei de algum modo de sua viagem porque troquei mensagens com ele em 14 de outubro, quando lhe enviei um texto e ele me informou que estava na metade de uma viagem solo de 10 mil quilômetros, que quando retornasse a Campinas me daria uma resposta, o que de fato fez. Além desse contato objetivo e datado, o livro permite vários contatos indiretos com o autor, que é amigo desde o final dos anos 1970. Embora muitas informações pessoais que surgem no livro sejam desconhecidas, várias outras retomam episódios e traços de seu perfil de alguma forma compartilhados ao longo desses anos de amizade. Dessa forma, não me passaram despercebidas menções como a do amigo morto aos dezessete anos, a quem ele dedicou um poema cuja imagem da pele justa no corpo me ficou na memória desde que li seu Indigo blues (1984). Voltando aos livros evocados, penso especialmente em Caminhar no gelo (1978), de Werner Herzog, Cem dias entre céu e mar (1995), de Amyr Klink, e No ar rarefeito (1997), de Jon Krakauer. Que eles contemplem terra/mar/ar é mera coincidência, pois os li por acaso e movido principalmente pela curiosidade da experiência insólita. A exceção talvez seja o livro de Herzog, que procurei ler mais pela admiração que tenho pelo diretor de cinema do que pela sua aventura na neve. Por outro lado, é também o que talvez se aproxime mais do livro de Paulo. Mas essa é apenas uma hipótese, pois eu precisaria relê-lo para confirmar tanto tempo depois se, ao caminhar solitariamente de Munique a Paris durante três semanas para impedir que Lotte Eisner morresse, ele se dedicou mais a meditações e reflexões do que ao relato da viagem. Já o livro de Klink foi lido sem dúvida por pura curiosidade e até certo interesse científico: como alguém conseguiu planejar e realizar a travessia do Atlântico num barco a remo, com assombrosos riscos de vida, calculadamente vencidos? Mais emocionante, por ter sido muito mais arriscada, foi a aventura de Krakauer no pico do Everest, em que morreram seis de seus companheiros de escalada. São todas leituras que confirmam que ninguém resiste a um bom relato de aventuras. Mas a história de Paulo tem pouco de aventuras originais e únicas porque não se trata de algo inédito, feito apenas por ele. Muitos motociclistas, segundo ele próprio informa, fazem viagens semelhantes. A originalidade reside justamente na particularidade de sua viagem solitária, que buscava não apenas a experiência do percurso, digamos geográfico, em si digno de nota, diga-se de passagem, mas a experiência interior, que misturando memória e observação buscou obter perdão, termo de difícil definição mesmo no contexto do livro, mas que se torna pleno de sugestões quando se defronta com ele no texto. Mesmo não se caracterizando como livro de aventuras no sentido dos três mencionados, ele é lido com grande interesse. Conta, para isso, sem dúvida, o estilo do autor, claro, elegante, nuançado e corretíssimo sob qualquer ponto de vista. Mas conta muito mais a sua organização. E aqui a figura da moto não é indiferente; antes, ela dá o tom da viagem. O conhecimento técnico e emocional que o autor tem de seu veículo é surpreendente, capaz de envolver até leitores que, como eu, nunca subi nem pretendo subir numa moto. Nesse sentido, apresentar as nuanças de tal máquina como extensão do corpo e das emoções não é tarefa menor. A própria revelação final de que o veículo, apesar do comportamento irretocável durante a viagem, carregava um defeito de revisão que poderia ter causado um acidente fatal, tem o poder de conferir retrospectivamente uma emoção a mais à aventura. E aqui vale destacar a proximidade do livro com o de Amyr Klink. As duas viagens foram minuciosamente planejadas por quem entendia a fundo do assunto, mérito sem dúvida notável num mundo cheio de simulacros em que todos sabem tudo superficialmente, valendo-se inclusive de artefatos tecnológicos que, em grande parte, são autoexplicativos. Assim, conhecer o objeto e saber contá-lo é um dote. Mas, como já disse, diferentemente do livro sobre a travessia do mar, o relato da viagem ao Atacama não se reduz à aventura externa, e por isso ele marca mais fundamente o leitor, fazendo-o experimentar, graças à linguagem, a própria aventura da vida, com suas emoções, conflitos, incertezas e a sempre renovada necessidade de uma busca. Assim, a aventura narrada em A mão do deserto não interessa apenas aos aficionados por motocicletas, mas pode atingir também e talvez principalmente leitores inquietos de um modo geral e certos de que a vida pode sempre lhes reservar uma surpresa, qualquer que seja ela.
Benedito Antunes
Comentários
Postar um comentário