Das Alegrias II - Miguel Sanches Neto

 Caro, Franchetti


Terminei a leitura de A MÃO DO DESERTO, um grande relato de viagem, que retoma uma tradição secular de se dedicar a percorrer regiões inóspitas. Lembra os relatos de Paul Theroux, obcecado pelas ferrovias. No seu caso, a motocicleta é o fio condutor da viagem, mas não é um livro para motociclistas, e sim para leitores de literatura. Como todo viajante moderno, você cria regras para fazer a viagem, impondo dificuldades ou restrições. Com o tempo, escrevendo ficção, tenho também determinado regras para não cair na escrita automática.

Diário de viagem, o livro é também uma biografia disfarçada, pois você revela momentos marcantes de sua trajetória, que oscila entre a paixão pelas máquinas (e ferramentas) e pelos livros, usando a solidão da viagem como uma forma de pensar-se, de perdoar e perdoar-se, em uma renúncia própria do monge no deserto, em um encontro com o nada que nos rodeia. Ao contrário do monge, que busca a lentidão, você procura a velocidade. E é nela que encontra a fragilidade da vida. Depois do segundo tombo, e por causa de sua doença cardíaca, você se identifica ocultamente com a moto com a ferramenta no motor. Vocês dois fazem a viagem em estado de risco. É um confronto com a morte e numa condição de grande precariedade, mas sem deixar de acelerar.

Um livro único. Cada vez mais me desagrada a invençãozinha ficcional que soa falsa, uma perda de tempo, e me fascinam os textos eivados de vida, de experiência, tal como seu livro. É um livro-resumo de sua vida. Você está inteiro nele, sem precisar entrar nos detalhes autobiográficos. Pode ser lido como um romance de autoficção.

Parabéns e abraço

Miguel Sanches Neto

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