Das Alegrias IV - Thomaz Albornoz Neves
A arte do haijin da motocicleta.
Sobre os haikai de "Toques" a conversa é longa e exigiria a presença. Tenho muito mais a ouvir que a dizer, Franchetti san.
Mas o teu "Deserto", um livro de viagens que na primeira folheada poupa o leitor da contaminação iconográfica, nem um mapinha a sujar a mancha, provoca, no mínimo, um surpreso respeito. É só texto mesmo.
Capturar e manter o leitor com a primeira pessoa narrando -hoje- é, convenhamos, uma tarefa bem mais árdua que décadas atrás. O "eu" aqui é uma imposição narrativa e some no que conta, discreto e natural, sobrevive à forma escrita com modéstia exemplar (é quase um eu sem ego). Dá gosto isso, tão oriental sem deixar de ser brasileiro.
Não vou dizer que a "Mão no deserto" é um road book bem escrito, porque redundo. Um texto de interesse começa por ser bem escrito, é o mínimo. Para a minha leitura, porém, a viagem, os acontecimentos, as descrições dos cenários estão em segundo plano. A voz do pensamento é a que mais me interessa ali, a forma como o motociclista conversa consigo e o mundo que essa conversa cria na página. Um mundo aceso, entremeado com as memórias e as expectativas que cada ocorrência provoca. A salvo de digressões sem o gancho do fato.
Imagino o prazer circular que deve ter sido viver a travessia e escrever sobre ela simultaneamente. Bem ao feitio dos mestres japoneses no século XVII, só que trezentos e cinquenta anos depois e ao som do motor de uma BMW.
Os 11.000 km tendo Atacama por centro parecem transcritos diretamente do filme da viagem, tal a vividez do presente na página. No fim, tudo volta ao mesmo: o poder de capturar instantes (neste caso uma extensa sucessão deles). Esta, a arte do haijin da motocicleta.
Uma nota sobre a edição. O formato cabe na mão e parece que são os 12 cm de largura que criam o bem estar do tato, mas não é isto. É a consistência do Chambril. As 80 g/m² desse papel parecem pesar mais que as dos outros. Tornam o livro mais coisa, mais objeto. Ateliê ed. é um luxo de simples.
Thomaz Albornoz Neves
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