Das alegrias VII - Paulo César de Carvalho
Estou lendo "A Mão do Deserto", de carona na motocicleta de Paulo Franchetti (em meu quarto, na roça). Esta viagem é um livro; este livro é uma viagem! Diria Rosa: Travessia! No meio do caminho, há muitas vozes ventando nos tímpanos da minha memória:
"É verdade que somos dotados de uma capacidade inoportuna de disseminar nossa felicidade às vezes além dos 'seus' limites, mas isto é de tal forma regulado que, seja pelos limites das línguas, associações e dependências, ou pela diferença de educação, costumes e hábitos, nos encontramos diante de tantos impedimentos para transmitir as sensações para além da nossa própria esfera, que isto amiúde leva a uma total impossibilidade (...).
Isto me leva ao meu objetivo e naturalmente conduz (...) às causas finais, bem como as eficientes de viajar (...).
E o último de todos (se me permite), o Viajante Sentimental (eu, no caso), que viajei e por isso estou neste momento escrevendo este relato - tanto pela 'Necessidade' e pelo 'besoin de voyager' (...).
É suficiente para o meu leitor, se ele mesmo já esteve na condição de viajante, que com exame e reflexão da questão ele possa definir seu próprio lugar e classe na lista - isto representará um passo na direção do autoconhecimento, já que é grande a probabilidade de ele conservar matizes e imagens do que experimentou ou fez até o momento." (STERNE, Laurence. "Viagem sentimental". São Paulo: Hedra, 2008, pp. 29, 30 e 32).
"Ulisses é o homem que todos queremos ser (...). Viajar parecia fazer parte [não só] de suas necessidades, mas também do que ele era, do que nós somos… O ato de viajar é constituidor do nosso conhecimento do mundo e, portanto, arriscamos dizer, do que significa ser humano. Para nossos tempos urbanos e acomodados, em que o mundo está ao alcance do teclado, a necessidade de viajar como elemento intrínseco à formação da cultura parece exagero (...).
A natureza das narrativas de viagem possibilita essa segmentação em textos que vão dar abordagem turística mais individual à exploração filosófica que os deslocamentos, reais ou imaginários, podem suscitar; e, assim, descobrir uma série de abordagens diferentes permitidas pela própria amplitude de motivações e resultados dessas viagens transformadas em texto literário ou científico. As motivações, para viagens reais ou imaginárias, estão classicamente relacionadas à necessidade de saber, de conhecer. Daí as viagens estarem quase sempre na origem de boa parte dos estudos científicos, da botânica à antropologia, da teoria da evolução à astronomia, assim como dos relatos de formação pessoal e compreensão mais íntima do 'eu' (...).
A literatura, claro, registrou tudo isso, e das mais diversas maneiras. E uma das questões interessantes nos estudos da literatura de viagens é justamente a variedade de gêneros de que esse modo literário se apossa. Qualquer gênero é capaz de abrigar as características que podem defini-lo como 'texto de viagem', o que acaba por configurar antes um grande tema que um estilo propriamente dito (...).
Dessa forma, o que houve foi um considerável crescimento do número de textos passíveis de serem classificados como 'de viagem', bem como novas possibilidades de leitura para aqueles que já eram tradicionalmente considerados assim (...). Assim como as viagens reais são sempre variadas e únicas, os textos também podem sê-lo, sem nenhum prejuízo para o tema e seu pertencimento a essa suposta nomenclatura." ("A viagem e a literatura", Sandra M. Stroparo. In: HEINE, Heinrich. "Viagem ao Harz". São Paulo: Editora 34, 2013, pp. 130-132).
"Empreendi e levei a cabo uma viagem de quarenta e dois dias ao redor do meu quarto (...). O prazer que há em viajar dentro do próprio quarto está a salvo do ciúme inquieto dos homens; ele tampouco está ao sabor da fortuna.
Haverá, com efeito, criatura tão infeliz, tão abandonada que não lhe reste um reduto para o qual possa se retirar e onde possa se esconder de todo mundo? Não é preciso outra coisa para dar início à viagem.
Estou convicto de que todo homem sensato adotará meu sistema (...), nada o impede de viajar como eu; em suma, na imensa família dos homens que formigam sobre a face da Terra, não há quem - não, não há (quero dizer, dentre aqueles que moram em quartos) - não há quem possa, depois de ler este livro, recusar sua aprovação à nova maneira de viajar que introduzo no mundo (...).
Eu poderia começar o elogio da minha viagem dizendo que ela não me custou nada (...). De resto, como essa forma de viajar vem bem a calhar para os enfermos! Não terão nada a recear diante das intempéries do clima e das estações do ano (...). O ser mais indolente hesitaria em pegar a estrada comigo na busca de um prazer que não lhe custará nem pena nem dinheiro? - Coragem, então, partamos!
(...) Os quarenta e dois dias vão terminar, e o mesmo espaço de tempo não bastaria para concluir a descrição do rico país por onde viajo com tanto prazer. Uma vez que devo dizê-lo, minha biblioteca é composta (...).
Da expedição dos argonautas à Assembleia dos Notáveis; das profundezas dos infernos à última estrela fixa para lá da Via Láctea, aos confins do universo, às portas do caos, eis o vasto campo por onde passeio em extensão e largura, e ao meu bel-prazer; pois não me faltam nem tempo nem espaço. É para lá que transporto minha existência, na trilha de Homero, Milton, Virgílio (...).
Todos os acontecimentos que se deram entre essas duas épocas, todos os países, todos os mundos e todos os seres que existiram entre esses dois termos, tudo isso é meu, tudo isso me pertence tanto e legitimamente quanto as naus que entravam no Pireu pertenciam a certo ateniense." (MAISTRE, Xavier de. "Viagem ao redor do meu quarto". São Paulo: Editora 34, 2020, pp. 9, 10, 55 e 57).
"Era meu último dia na Argentina. Valia a pena me despedir brindando com amigos. Mas antes do jantar e antes de deixar o país, penso que é hora de rebobinar a cronologia e recontar a viagem até este momento, no qual eu me preparava mental e fisicamente para cruzar os Andes e depois descer até San Pedro de Atacama (...).
Quando resolvi fazer sozinho a viagem ao Atacama, ouvi várias pessoas que tinham percorrido um roteiro semelhante ao que eu queria para mim. Estudei os mapas do computador e li relatos encontrados na internet. E aproveitei um pouco de tudo que me foi dito e sugerido, ou para repetir ou para evitar." (FRANCHETTI, Paulo. "A Mão do Deserto". São Paulo: Ateliê Editorial, 2021, pp. 36 e 65).
Publicado em https://www.facebook.com/paulocesarde.carvalho.904
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